segunda-feira, 23 de agosto de 2010

VIDA MODERNA 9


Naquela noite, enquanto minha esposa servia o jantar, eu segurei sua 
mão e disse: "Tenho algo importante para te dizer". Ela se sentou e 
jantou sem dizer uma palavra. Pude ver sofrimento em seus olhos. 

De repente, eu também fiquei sem palavras. No entanto, eu tinha que 
dizer a ela o que estava pensando. Eu queria o divórcio. E abordei o 
assunto calmamente. 

Ela não parecia irritada pelas minhas palavras e simplesmente 
perguntou em voz baixa: "Por quê?" 

Eu evitei respondê-la, o que a deixou muito brava. Ela jogou os 
talheres longe e gritou "você não é homem!" Naquela noite, nós não 
conversamos mais. Pude ouví-la chorando. Eu sabia que ela queria um 
motivo para o fim do nosso casamento. Mas eu não tinha uma resposta 
satisfatória para esta pergunta. O meu coração não pertencia a ela 
mais e sim a Jane. Eu simplesmente não a amava mais, sentia pena dela. 

Me sentindo muito culpado, rascunhei um acordo de divórcio, deixando 
para ela a casa, nosso carro e 30% das ações da minha empresa. 

Ela tomou o papel da minha mão e o rasgou violentamente. A mulher com 
quem vivi pelos últimos 10 anos se tornou uma estranha para mim. Eu 
fiquei com dó deste desperdício de tempo e energia mas eu não voltaria 
atrás do que disse, pois amava a Jane profundamente. Finalmente ela 
começou a chorar alto na minha frente, o que já era esperado. Eu me 
senti libertado enquanto ela chorava. A minha obsessão por divórcio 
nas últimas semanas finalmente se materializava e o fim estava mais 
perto agora. 

No dia seguinte, eu cheguei em casa tarde e a encontrei sentada na 
mesa escrevendo. Eu não jantei, fui direto para a cama e dormi 
imediatamente, pois estava cansado depois de ter passado o dia com a 
Jane. 

Quando acordei no meio da noite, ela ainda estava sentada à mesa, 
escrevendo. Eu a ignorei e voltei a dormir. 

Na manhã seguinte, ela me apresentou suas condições: ela não queria 
nada meu, mas pedia um mês de prazo para conceder o divórcio. Ela 
pediu que durante os próximos 30 dias a gente tentasse viver juntos de 
forma mais natural possivel. As suas razões eram simples: o nosso 
filho faria seus examos no próximo mês e precisava de um ambiente 
propício para prepar-se bem, sem os problemas de ter que lidar com o 
rompimento de seus pais. 

Isso me pareceu razoável, mas ela acrescentou algo mais. Ela me 
lembrou do momento em que eu a carreguei para dentro da nossa casa no 
dia em que nos casamos e me pediu que durante os próximos 30 dias eu a 
carregasse para fora da casa todas as manhãs. Eu então percebi que ela 
estava completamente louca mas aceitei sua proposta para não tornar 
meus próximos dias ainda mais intoleráveis. 

Eu contei para a Jane sobre o pedido da minha esposa e ela riu muito e 
achou a idéia totalmente absurda. "Ela pensa que impondo condições 
assim vai mudar alguma coisa; melhor ela encarar a situação e aceitar 
o divórcio" ,disse Jane em tom de gozação. 

Minha esposa e eu não tínhamos nenhum contato físico havia muito 
tempo, então quando eu a carreguei para fora da casa no primeiro dia, 
foi totalmente estranho. Nosso filho nos aplaudiu dizendo "O papai 
está carregando a mamãe no colo!" Suas palavras me causaram 
constrangimento. Do quarto para a sala, da sala para a porta de 
entrada da casa, eu devo ter caminhado uns 10 metros carregando minha 
esposa no colo. Ela fechou os olhos e disse baixinho "Não conte para o 
nosso filho sobre o divórcio" Eu balancei a cabeça mesmo discordando e 
então a coloquei no chão assim que atravessamos a porta de entrada da 
casa. Ela foi pegar o ônibus para o trabalho e eu dirigi para o 
escritório. 

No segundo dia, foi mais fácil para nós dois. Ela se apoiou no meu 
peito, eu senti o cheiro do perfume que ela usava. Eu então percebi 
que há muito tempo não prestava atenção a essa mulher. Ela certamente 
tinha envelhecido nestes últimos 10 anos, havia rugas no seu rosto, 
seu cabelo estava ficando fino e grisalho. O nosso casamento teve 
muito impacto nela. Por uns segundos, cheguei a pensar no que havia 
feito para ela estar neste estado. 

No quarto dia, quando eu a levantei, senti uma certa intimidade maior 
com o corpo dela. Esta mulher havia dedicado 10 anos da vida dela a 
mim. 

No quinto dia, a mesma coisa. Eu não disse nada a Jane, mas ficava a 
cada dia mais fácil carregá-la do nosso quarto à porta da casa. Talvez 
meus músculos estejam mais firmes com o exercício, pensei. 

Certa manhã, ela estava tentando escolher um vestido. Ela experimentou 
uma série deles mas não conseguia achar um que servisse. Com um 
suspiro, ela disse "Todos os meus vestidos estão grandes para mim". Eu 
então percebi que ela realmente havia emagrecido bastante, daí a 
facilidade em carregá-la nos últimos dias. 

A realidade caiu sobre mim com uma ponta de remorso... ela carrega 
tanta dor e tristeza em seu coração..... Instintivamente, eu estiquei 
o braço e toquei seus cabelos. 

Nosso filho entrou no quarto neste momento e disse "Pai, está na hora 
de você carregar a mamãe". Para ele, ver seu pai carregando sua mão 
todas as manhãs tornou-se parte da rotina da casa. Minha esposa 
abraçou nosso filho e o segurou em seus braços por alguns longos 
segundos. Eu tive que sair de perto, temendo mudar de idéia agora que 
estava tão perto do meu objetivo. Em seguida, eu a carreguei em meus 
braços, do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da 
casa. Sua mão repousava em meu pescoço. Eu a segurei firme contra o 
meu corpo. Lembrei-me do dia do nosso casamento. 

Mas o seu corpo tão magro me deixou triste. No último dia, quando eu a 
segurei em meus braços, por algum motivo não conseguia mover minhas 
pernas. Nosso filho já tinha ido para a escola e eu me vi pronunciando 
estas palavras: "Eu não percebi o quanto perdemos a nossa intimidade 
com o tempo". 

Eu não consegui dirigir para o trabalho.... fui até o meu novo futuro 
endereço, saí do carro apressadamente, com medo de mudar de 
idéia...Subi as escadas e bati na porta do quarto. A Jane abriu a 
porta e eu disse a ela "Desculpe, Jane. Eu não quero mais me 
divorciar". 

Ela olhou para mim sem acreditar e tocou na minha testa "Você está com 
febre?" Eu tirei sua mão da minha testa e repeti "Desculpe, Jane. Eu 
não vou me divorciar. Meu casamento ficou chato porque nós não 
soubemos valorizar os pequenos detalhes da nossa vida e não por falta 
de amor. Agora eu percebi que desde o dia em que carreguei minha 
esposa no dia do nosso casamento para nossa casa, eu devo segurá-la 
até que a morte nos separe. 

A Jane então percebeu que era sério. Me deu um tapa no rosto, bateu a 
porta na minha cara e pude ouví-la chorando compulsivamente. Eu voltei 
para o carro e fui trabalhar. 

Na loja de flores, no caminho de volta para casa, eu comprei um buquê 
de rosas para minha esposa. A atendente me perguntou o que eu gostaria 
de escrever no cartão. Eu sorri e escrevi: "Eu te carregarei em meus 
braços todas as manhãs até que a morte nos separe". 

Naquela noite, quando cheguei em casa, com um buquê de flores na mão e 
um grande sorriso no rosto, fui direto para o nosso quarto onde 
encontrei minha esposa deitada na cama - morta. 
Minha esposa estava com câncer e vinha se tratando a vários meses, mas 
eu estava muito ocupado com a Jane para perceber que havia algo errado 
com ela. Ela sabia que morreria em breve e quis poupar nosso filho dos 
efeitos de um divórcio - e prolongou a nossa vida juntos 
proporcionando ao nosso filho a imagem de nós dois juntos toda manhã. 
Pelo menos aos olhos do meu filho, eu sou um marido carinhoso. 

Os pequenos detalhes de nossa vida são o que realmente contam num 
relacionamento. Não é a mansão, o carro, as propriedades, o dinheiro 
no banco. Estes bens criam um ambiente propício a felicidade mas não 
proporcionam mais do que conforto. Portanto, encontre tempo para ser 


amigo de sua esposa, faça pequenas coisas um para o outro para mantê-
los próximos e íntimos. 

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